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SETOR FLORESTAL

Entrevista do presidente do CIPEM a Revista Referência Florestal

A edição do mês de março da Revista Referência Florestal, maior revista do segmento no país, trouxe em suas páginas principais um entrevista exclusiva com o presidente do Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso (Cipem), José Eduardo Pinto. Na entrevista, concedida ao jornalista Rafael Macedo, José Eduardo falou sobre os desafios do setor, perspectivas de crescimento, SIsflora 2.0, CRV e outros assuntos que afetam diretamente o setor de base florestal em nível regional e nacional.

O presidente do Cipem havia participado também da reportagem especial da edição de fevereiro da revista, onde representantes do setor florestal de todo o país fizeram um balanço da atividade em 2016 e falaram sobre suas expectativas para 2017 (pode ser vista clicando aqui).

Confira a entrevista completa abaixo:

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O setor florestal do Mato Grosso amargou um forte golpe há mais de 15 anos, com a queda do dólar e o crescimento da madeira vinda de plantios florestais. Cenário que ainda causa reflexos no desempenho do setor. Soma-se ainda, as mudanças nos modelos e novas exigências dos órgãos ambientais com a intenção de controlar a ilegalidade, mas que não levam em conta a realidade da região e comprometem a competitividade da atividade baseada no manejo florestal sustentável.

O presidente do Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso (CIPEM), José Eduardo Pinto, conta como as empesas estão agindo para enfrentar a crise, mostra que os empresários operaram dentro das leis e a expectativa de que a atividade seja melhor compreendida pela sociedade, tanto pelo benefício ambiental quanto econômico.

 

Eduardo capa

O presidente do Cipem, José Eduardo Pinto. Foto: Arquivo Cipem.

 

 

RF: Como avalia o histórico da indústria nos últimos 15 anos?

A indústria de base florestal de Mato Grosso, devido às questões econômicas e também às pressões ambientais, foi obrigada a se reinventar nos últimos 15 anos. Com a queda do dólar em 2004/2005, as exportações ficaram praticamente inviabilizadas e tivemos que nos voltar para o mercado nacional. No entanto, neste mercado, a concorrência com os outros Estados produtores que têm uma realidade diferente da nossa é desleal. Somando isto ao crescimento da madeira plantada no período, fez com as nossas margens de lucro viessem à zero. Por conta disso, as empresas do nosso setor sofreram para se manterem no mercado, enquanto precisávamos nos unir para nos reinventarmos e nos adequarmos no quesito ambiental. Hoje, praticamente 100% da madeira explorada no Estado vêm de Planos de Manejo Florestal Sustentável e atendem às mais diversas exigências de mercado.

 

RF: O que explica o cenário atual?

Depois dessa grande queda do dólar em 2004/2005, fomos afetados pela crise econômica mundial de 2008. Mais recentemente, a crise política e econômica no Brasil também fez com que a demanda geral do mercado caísse muito, ao mesmo tempo em que a oferta havia aumentado consideravelmente. Os produtores tiveram que se readequar a este cenário de mercado e aos custos que isso gerou, enquanto enfrentavam uma concorrência acirrada pelo excesso de produto disponível. Isso fez com que as empresas fossem obrigadas a olhar seus custos e a cortar gastos. Além disso, pelo lado positivo, tivemos que buscar novas alternativas e nichos de mercado para garantir a sobrevivência das empresas.

 

RF: Como avalia o grau de ilegalidade no segmento? Qual o estrago que ele produz para as empresas que respeitam a legislação?

Assim como em todos os segmentos do mercado, no nosso, infelizmente, também ocorre esse tipo de situação. Mas digo, e comprovo estatisticamente através de dados do Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de Mato Grosso (Indea-MT), que em Mato Grosso o índice de ilegalidade no segmento da madeira é muito menor que em outros segmentos. Um levantamento realizado pelo Indea em 2016, no qual verificaram o volume de madeira em caminhões fiscalizados mostrou que os que possuem algum tipo de irregularidade ficam abaixo de 1% do total.

 

RF: Por que o Estado é tão marcado com notícias negativas?

O grande problema, em minha opinião, é que essa pequena parte irregular é que ganha espaço na mídia. Dessa forma, uma parcela insignificante de irregularidade causa um grande estrago para a imagem do setor perante a opinião pública, que não corresponde à realidade de nossas indústrias. Diria que esse é o maior estrago que a ilegalidade causa para a gente: gera uma imagem negativa do setor para a sociedade. Isso cria uma dificuldade, um preconceito das pessoas em relação ao nosso setor e ao uso da madeira nativa. Tudo isso é reforçado pelo fato de que a maioria das pessoas não sabe o que é um manejo florestal, como funciona e quais os benefícios dele para a floresta e, em suas cabeças, relacionam diretamente as indústrias florestais às imagens de destruição e devastação que são veiculadas na mídia.

 

RF: Existe diálogo com os órgãos de controle e normativos? Por que o segmento está sendo tão penalizado?

Sim, na verdade conseguimos manter um bom diálogo com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT), com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e com o próprio Ministério do Meio Ambiente. O grande problema é que, quem cria as leis e regulamentações não conhece a realidade do setor. Outra questão é que a pressão sobre as questões ambientais é muito grande, não só aqui, mas em nível mundial. E, como disse anteriormente, a maioria das pessoas não sabe o que é explorar a madeira nativa através de planos de manejo, então a própria sociedade e a opinião pública pressionam os órgãos para que sejam cada vez mais rígidos com setores como o de base florestal. A sociedade precisa entender o que é o manejo, que se colhem apenas as árvores maduras e que morreriam em breve; que colhemos uma média de seis árvores para cada área equivalente a um campo de futebol e que isso contribui para a regeneração e renovação da floresta; que não saímos derrubando indiscriminadamente, e que, na verdade, após a exploração da área, esta região só é revisitada depois de cerca de 35 anos. Além disso, o manejo promove o sequestro de carbono e ajuda no combate às mudanças climáticas. Somos aliados na preservação e não inimigos do meio ambiente. A sociedade precisa entender isso, e isso deveria ser incentivado pelo poder público, e não engessado demasiadamente.

 

RF: Qual foi o resultado da redução do índice de aproveitamento? As empresas que possuem melhor desempenho conseguiram comprovar os números?

A primeira consequência direta desta decisão do Conama, que precisará ser melhor analisada em um futuro próximo, é que as empresas estão sendo obrigadas a contratar um engenheiro para comprovarem que seu rendimento médio é acima dos 35% e a inviabilidade desse limite definido na resolução. Isso tem custado caro para as empresas, ainda mais nesse momento em que as margens de lucro estão tão baixas e a maioria das empresas tenta sobreviver à crise. O resultado dos estudos apresentados ao órgão ambiental estadual têm se mantido entre 50% e 58%, em média. Há casos que os índices ultrapassam os 60%. Por exemplo, se considerarmos que uma empresa obterá o resultado de 600 cm³ (centímetros cúbicos) de madeira serrada de cada 1 m³

(metro cúbico) de tora, ela só terá autorização nos sistemas para comercializar o montante de 350 cm³. Caso ela venha a ser fiscalizada, terá 250 cm³ ilegais no seu pátio. Ai fica a pergunta: como resolver o problema do estoque físico? Além disso, uma série de fatores impediram que os laudos elaborados fossem protocolados na Sema-Mt até a data limite estipulada (16/11/2016), e devido à grande demanda de licenciamentos e outros procedimentos do órgão, a análise desses estudos (laudos CRV) está parcialmente comprometida. Por conta disso, muito provavelmente, as empresas amargarão a redução de seu índice para 35% até que os laudos sejam analisados e deferidos.

 

RF: Por que existe tanta dificuldade na adequação do sistema de controle proposto pelo Estado, o novo Sisflora 2.0?

É preciso entender que a principal alteração proposta pelo Sisflora 2.0 é na sistemática de apresentação da cadeia de custódia da madeira, que passará a ser realizada pelo órgão ambiental por meio de um sistema online e em tempo real extremamente complexo e detalhado. Ele exigirá a inserção de dados a cada etapa do processo de exploração, inclusive as realizadas em campo e, por isso, demandará acesso à internet de alta velocidade e exigirá que o responsável técnico esteja permanentemente logado no sistema para realizar os lançamentos de dados. Quem conhece a realidade das cidades do interior sabe que isso é impossível. Pagamos caro e não recebemos internet de qualidade nem na cidade, imagina nos empreendimentos florestais, que funcionam na zona rural, distantes das cidades. Além disso, a emissão da GF (Guia Florestal), necessária para os procedimentos de compra, venda e transporte de matéria-prima (tora) e produtos de desdobramento da madeira, será muito mais burocrática. Outra coisa, o nível de complexidade dele vai exigir mão de obra mais qualificada para operá-lo e isso gerará mais custos para os empresários. Nós já enfrentamos dificuldades nesse sentido. As empresas possuem poucos funcionários no quadro com alta qualificação, e sofrem com a alta rotatividade devido às distâncias e restrições que as cidades do interior impõem aos trabalhadores. Estamos convencidos que esse sistema engessará nossas atividades. Nós não temos condições de fazer funcionar um sistema com essa complexidade no dia a dia. Nós já trabalhamos na legalidade, cumprimos todas as normas e exigências legais e ambientais. Nossa preocupação é que esse nível de detalhamento deslocado da nossa realidade inviabilize as atividades do setor.

 

RF: Como as empresas competem com os Estados que não sofrem com os mesmos problemas? Quais são as maiores vantagens dos outros Estados?

Nossas empresas têm enfrentado grandes dificuldades para tornar nosso produto competitivo. Isso se deve, principalmente, ao alto custo de toda a burocracia que nos é imposta. Além disso, pagamos caro pela energia elétrica e temos um frete caríssimo, grande parte por conta das más condições das estradas no Estado. No entanto, pagamos, por exemplo, o Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fetahb), que é um tributo estadual que deveria financiar o planejamento, a execução, e acompanhamento de obras e serviços de transportes e habitação em todo o território mato-grossense. Em 2016, o setor da madeira contribuiu com mais de R$13 milhões em tributos para o Fethab. Pagamos, não vemos retorno e continuamos sofrendo as consequências das más condições das estradas. Temos uma grande carga tributária e nossa pauta fiscal (lista de preços mínimos) para fins de recolhimento de impostos é a maior do país.

 

RF: Qual a sua expectativa para a solução destes entraves? Quando o segmento vai se recuperar?

O segmento só vai se recuperar quando a economia reagir totalmente. Ainda assim, será preciso trabalhar romper com muitos paradigmas dos órgãos reguladores em relação à legislação. Quanto mais regulamentações deslocadas da nossa realidade, mais engessado fica o nosso setor e é impossível trabalhar. Se formos comparar o conceito de empresário madeireiro no Brasil com o que temos em outros países de primeiro mundo, como o Canadá ou Estados Unidos, é deprimente. Lá, e cada vez mais na Europa também, o setor é respeitado e contribui proporcionalmente para ao Produto Interno Bruto (PIB) desses países. No caso do Canadá, muito mais do que a soja no Brasil, por exemplo. Temos toda essa riqueza florestal no Brasil, mas, infelizmente, ainda estamos muito longe de uma realidade como a vivida nesses países.

 

RF: O manejo florestal sustentável é viável economicamente?

O resultado deveria ser melhor. No atual momento, avalio que o manejo não tem muita viabilidade econômica devido aos grandes custos para a realização da atividade e à extrema burocratização dos processos. No entanto, mesmo com os custos envolvidos na avaliação e aprovação dos projetos de manejo e sua exploração, é a única forma que temos de explorar legalmente a floresta e ainda preservá-la.


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Fique de Olho

Atenção para os prazos de vencimento do CC-Sema e da L.O.

O Cipem alerta seus associados para os prazos do Sistema de Cadastro de Consumidores de Produtos Florestais (CC-SEMA). A maioria dos cadastros vence no primeiro trimestres deste ano. Os processos de renovação do cadastro no CC-SEMA devem ser protocolados com 30 dias de antecedência na Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema – MT). Já a renovação da Licença de Operação (LO) deve ser protocolada com 120 dias de antecedência. Reforçamos que a não realização das renovações no prazo determinado pode resultar no bloqueio das atividades. Em caso de dúvidas, procure o responsável técnico de sua empresa. Evite transtornos desnecessários! CIPEM-MT      

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